sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Um vez ausentámo-nos para o Continente e o King ficou ao cuidado dum familiar. Quando regressamos o Marcelo disse -nos : - o King está muito doente!- Senti abrir-se uma especie de ferida na alma, mas logo pensei que talvez não fosse nada de grave. Depressa, porém, me apercebi da situação:quando assomei à janela (era já de noite)apenas o seu corpo escuro, apoiando-se contra a parede da casa era o sinal de que estava ali como podia para me receber.Mal se segurava de pé e já não conseguia sequer levantar a cabeça.No dia seguinte, soubemos que os centros nervosos do King tinham entrado em degeneração começando pelas patas traseiras e pescoço.Durante longos dias fomos amparando o King. Ajudava-o a percorrer o passeio do quintal e mesmo sentado atirava-lhe a bola que ele aparava com a boca. Foi-se entusiasmendo a pouco e pouco e começou por dar umas passadas, depois já ia a curta distância buscar a bola e acabou por recuperar quase noventa por cento das suas capacidades.Depois veio aquele período de longas caminhadas com o Vítor em que o King o acompanhava alegremente. Com o decorrer do tempo, porém, as patas traseiras voltaram a fraquejar, por vezes julgava-se que ele já não teria forças de regressar a casa.Levantava-se com muita dificuldade para vir ter connosco ou para as suas necessidades fisiológicas. Às vezes caía sobre os excrementos. Sentia-se como que embaraçado e desamparado. Até que ,em Novembro de dois mil o King foi acometido de novo ataque. Recusava-se a dormir na casota e começou a deitar-se ao relento . Em cada manhã, eu pensava que o iria encontrar já sem vida...Mas não! Lá estava, cada vez mais incapacitado e sem que o pudéssemos ajudar, pois não permitia que tentássemos pô-lo de pé.Quando nos abeirávamos só reagia com aquele olhar triste e desalentado, mais nada. Acabámos por colocá-lo sobre uma manta que carregamos para a gargem. Aí passou mais umas noites. Mas não se levantava e descansava sobre as feses e a urina.Chegou finalmente o dia. Era sexta feira. Fomos surpreendê -lo de pé no quintal.Mas estava ali,incapaz de levantar sequer uma pata! Acariciei-o e ele ainda conseguiu ter para mim aquele seu gesto tão peculiar de esfregar a grande cabeça nas nossas pernas. Foi a nossa despedida formal duma convivência de doze anos!

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