Era no mês de Setembro. Quase no fim! Mas na nossa casa pairava ainda a sombra densa e dolorosa da partida do Tibério. Havia pouco mais de dois meses que a morte nos visitara, levando consigo o filho querido! O silêncio que então se abatia sobre as nossas vidas era quase insuportável! Mas numa dessas noites, deitada de olhos e ouvidos acordados comecei a ouvir miar...Era um gatinho bebé.Logo na manhã seguinte pude prová-lo : ao sair para a escola lá estava "ela", muito pequenina, mal se segurando nas patas, mas caminhando de um lado para o outro e a miar.A sua linda pelagem fazia lembrar um tigre bebé! Trouxe-lhe uma malguinha com leite. Ensinei-a a beber, lambendo nos meus dedos e deixei-a, de novo lá no jardim, dividida entre a vontade de a ter comigo e a esperança de que se afastasse. Nessa tarde ainda lá estava. E no outro dia e no outro. E sempre o leite para lhe matar a fome.A reentrada em casa continuava, entretanto a ser muito penosa. O silêncio pesado e a penumbra da tarde faziam da nossa casa um outro túmulo. Então decidimos deixar entrar aquela gatinha cor de tigre que o destino viera deixar à nossa porta. Ao sentir-se acolhida mostrou-se feliz. Sentou-se logo ali e começou a ocupar-se com a sua pelagem.Depois foi a aprendizagem para usar a caixa de areia que já tínhamos preparado. E pronto, estava encetado um convívio que viria a perdurar por mais dezassete anos! Um mês depois deste encontro veio viver connosco para o Pico da Pedra. Quando teve a sua primeira ninhada mudou-se de dentro de casa para a varanda, onde havia uma casota de madeira e uma caixa de areia. Cuidava dos filhos com desvelo e vivia feliz. Da segunda ninhada nasceram o Tareco e o Farrusco que ficaram sempre com a mãe. Houve também uma temporada em que ela passou a dormir dentro de casa. Ao serão, a Duquesa adorava o calor do colo ou então deitar-se junto da lareira a arder, nas noites de inverno. Estava sempre presente com uma postura altiva, bela e inteligente. DUQUESA era o seu nome que lhe assentava lindamente e de acordo com a sua personalidade.
Às vezes, no meu colo, ouvindo-me chorar, trepava pelo meu peito, miando alto e, quase tragicamente, me fazia sentir que não podia ouvir o meu choro.Assistiu a muitas histórias da minha vida, umas de alegria, outras de dor.Foi testemunha dos meus mais profundos sentimentros, pois era a minha fiel companhia.Prescrutava com grande acuidade os meus sentimentos: se pressentia que eu estava bem disposta e feliz ela vinha passar o dorso pela minhas pernas, dar umas cabeçadas de meiguice e como que desenhava um belo sorriso no seu semblante. Mas noutras alturas em que o meu humor de momento não era dos melhores, olhava-me um pouco de longe com um olhar sério ,de pupilas exageradamente dilatadas.Olhava-me assim demoradamente até o " mau tempo " passar.Um dia teve um precalço: caíu no balcão pequeno, não se sabe vinda de onde, e trazia a boca ensanguentada, os dentes partidos e toda ela era uma viva expessão de dor. Consolei-a quase desajeitadamente e trouxe-lhe um pouco de água para beber. Depressa se recompôs deste incidente e retomou a sua vida normal.E o tempo foi passando e a Duquesa, conforme as leis da vida , começou a envelhecer . Por questões de higiene voltou à sua casota na varanda, pois com uma inflamação que lhe surgiu na boca começou a babar-se. Nas fases piores tratava-se na Veterinária; nas alturas melhores ia vivendo, embora de forma limitada. E haviam passado dezassete anos! Já não podia subir a escadda que levava ao primeiro andar. Levava-a ao colo até haver degraus, o que ela comprendia e parecia agradecer. Chegado, entretanto , o mês de Setembro a Duquesa já tinha dificuldade em andar. No dia cinco as patas traseiras paralizaram, mas ainda se arrastava para comer.No dia seguinte foram as patas dianteiras que deixaram de funcionar, mas ainda bebeu um poco de leite comigo a segurar-lhe a cabeça. No dia sete, a Duquesa ficou numa espécie de coma. Havia uma sonolência constante, um vaivém entre a vida e a morte... Apagou-se ao fim da manhã, precisamente no dia em que eu estava a celebrar 65 anos de vida!Quando a acomodei para ela seguir o seu destino já estava fria e endurecida pela morte. Deitei-a numa caixinha, aconcheguei-a no seu cobertor habituaql e lá foi dormir para sempre no seio acolhedor da terra.
DUQUESA! Nossa gatinha tigrada, ficarás para sempre connosco, na nossa memória e no nosso coração. Fico-te grata, até ao fim da minha vida pela tua companhia e dedicação. Creio que por ti fiz tudo o que podia ser feito dentro das nossas condições. Agora, descansas,livre e liberta,da velhice e da doença que determinaram o fim da tua convivência connosco.
P S :Obrigada também por teres alegrado, ou tornado menos negros,aqueles dias em que chegaste à nossa casa em Ponta Delgada, quando a tristeza pesadamente se abateu sobre nós com a partida do nosso Tibério.
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